sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Antes

É que ele acreditava que ela definharia em sua casa. A doença comeria seus músculos. O medo paralisaria suas pernas. E aí, então, ela poderia ser melhor cuidada.

Não que ele negligenciasse. A vontade dela era a última coisa que racharia. Até onde pudesse, não se curvaria a ninguém. Foi assim com os remédios, com as roupas, com as sandálias, com os dentes. Apenas aquele remédio era o que tomava. As roupas, rasgadas. As sandálias lhe fazendo joanete. Os dentes caindo de podres. O mais importante era ser da vontade dela.

Talvez se a tivessem obrigado a isso ou aquilo, já teria morrido, de desgosto, de raiva, de loucura. A casa estava com os tijolos expostos, sem reforma, sem cuidado. Os móveis, cada dia mais baixos, corroídos, deteriorados. Para sanar sua constipação, nada de pós prescritos por este ou aquele médico. Um laxante casual e uma ameixa grudada entre os dentes.

Escondia-se por trás de certa vanglória de ser humilde como os franciscanos. A missa ali, diuturnamente exibida à televisão, consolava um pouco. Evitava a depressão. Os choros não eram depressão. Não acredito que fossem. O conjunto todo era ela, firme e birrenta.

Ajudada por empregadas, cuidara da casa por toda a vida, procurando os melhores preços de tudo, a pé. O dinheiro que economizou não utilizara para qualquer festa ou banquete, viagem ou vaidade. Distribuía, então, para os cuidadores segundo acordos de trabalho.

Foi quando, naquela noite, o remédio deu para não fazer efeito. Um nervosismo, uma discussão, um não sei que a fez passar a noite em claro. A agitação paralisante, a emergência, a infecção pulmonar, a sepse, a decisão por não intubar, os quatro dias de vigília, a respiração ruidosa e, enfim, a morte.

O rapaz ficara preso no hospital sem entender o que acontecera. Ele pensava que assumiria os cuidados da própria mãe em cerca de cinco anos. Já preparava a casa ao lado para alugar. Ia cuidando da própria vida, tentando organizar suas forças, exercitar a paciência, quando antes, bem antes do calculado, ela faleceu.

Então era isso. Ele não pode mostrar do que era capaz. Deus não queria essa prova tola. Deus só queria o término da dor. Não era preciso ser herói de ninguém. E agora, teria que encontrar outra forma de salvar a própria alma que não pelas vias do exercício da piedade filial.

É que ele acreditava que ela definharia em sua casa. Mas agora, estava ali, preso no hospital.

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